
O boca do Inferno
Gregório de Matos Guerra, ou melhor, dizendo O boca do Inferno!
Sempre gostei de poesia... E odiava as aulas de literatura. Na escola me faziam decorar figuras de linguagem, quem era fulano e o que ele fazia... odiava tudo aquilo. Pra que era que ia querer saber daqueles autores que em maioria tinham morrido e que escreviam tudo em palavras entrelinhas?
Pois é na época eu não tinha maturidade suficiente, era uma “aborrescente” tinha quinze anos e como tal, seguia os modismos da época... mas gostava de poesia e também queria escrever.
Com o passar dos tempos, minha sensibilidade foi aumentando... foram acontecendo coisas e fatos, que não convém serem postados aqui... fica a curiosidade... como dizem por ai, sou de natureza misteriosa, e voltando ao assunto de poesias... mergulhei fundo (não por obrigação, mas sim por desejo) no mundo barroco... diria eu, um mundo grosseiro, obscuro, paradoxal, mas muito peculiar por ser a pura realidade vivida até hoje pelo ser humano, e me apaixonei em especial pelo “boca do inferno”, principalmente por sua ironia (sou irônica por natureza), o humor negro dele me conquistou a ponto de ler toda a sua biografia (e olha que odeio biografias), li sem exceção todos os seus poemas e fiz questão de interpretá-los, lembro - me que aos 23 anos, já bióloga, pensei seriamente em prestar vestibular para letras, não para ter uma profissão, mas sim estudar Gregório a fundo.
Leiam O boca do Inferno... e verão que a vida é exatamente como ele relata, só não vale à pena cair em depressão, aliás, a vida tem que ser vivida com a intensidade de que se tem medo de vivê-la.
Soneto
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco c'os demais, que só, sisudo.
Loucura? Que nada... plena razão!


